Rotas para o Oriente e Navegações Portuguesas

As especiarias eram colhidas por comerciantes hindus e chineses em todo o Oriente, e transportadas em grandes caravanas através do continente asiático até o litoral do Mediterrâneo. Ali eram compradas por comerciantes turcos ou italianos, e redistribuídas pelo interior da Europa. A viagem por mar, apesar de todos os perigos, era bem mais rápida – e menor o número de intermediários. Por isso, cada travessia bem-sucedida gerava lucros enormes, vindo daí a tentação da conquista.

 

A meu ver, a causa mais forte foi a comercial. As nações européias, em especial Portugal e Espanha precisavam de novas rotas para estabelecer e manter comércio com outros países, principalmente do Oriente. Com o controle da passagem do Mediterrâneo pelos turcos e o alto preço cobrado por atravessadores, fazia-se necessário buscar novas rotas, direto do Oriente. Para conseguir o apoio da coroa de seu país, os navegadores (não só Colombo) e outros interessados convenceram os governantes de então de que a expedição também serviria aos propósitos expansionistas da fé cristã, uma vez que as coroas ibéricas tinham tomado o poder dos muçulmanos após o longo processo conhecido como RECONQUISTA IBÉRICA (lembrar que Portugal só se consolidou após este processo). Assim, em nome da coroa e da Igreja Católica, partiram as famosas expedições de Colombo, Cabral, Vasco, entre outros.
Numa única expedição, os lucros chegavam a mais de 150%, livres de todos os gastos. Produtos como pimenta, seda, tapeçarias, entre vários outros, faziam a cabeça das cortes européias.
Uma curiosidade: Os fortes condimentos trazidos do Oriente serviam para enganar o paladar dos europeus, que comiam suas refeições em já avançado estado de apodrecimento!

Tratado de Tordesilhas

A Igreja católica desempenhou papel fundamental em todo o plano português de expansão marítima. O Infante d. Henrique tinha obtido do papa o status de cruzada ou guerra santa contra os infiéis para o empreendimento. Havia uma razão para a Igreja aceitar a idéia: naquele momento, os árabes eram uma ameaça real ao Ocidente católico, sobretudo depois de tomarem Constantinopla em 1453. O sucesso da empreitada portuguesa atraiu outros países para a aventura. Entre eles, o mais forte concorrente era a Espanha, seguida pela França. Preocupado com a situação, o governo português recorreu ao papa. Este intermediou as negociações que resultaram num acordo: as terras a serem descobertas seriam divididas entre os dois países. Depois da primeira viagem de Colombo à América, em 1492, o acordo foi transformado num tratado, assinado em 1494. Pelo acordo, um meridiano localizado a 370 léguas a oeste das ilhas Canárias dividiria entre os dois países a posse das terras a serem descobertas. Era uma solução apenas formal. Na época não se conhecia nenhuma fórmula precisa para se calcular longitudes (o que só foi possível três séculos mais tarde). Assim, o Tratado de Tordesilhas serviu mais como acordo de intenções do que como fórmula prática para determinar as fronteiras recém-descobertas ou a descobrir pelos reinos ibéricos.

Navegações Portuguesas

A arte náutica em Portugal.

 

As primeiras embarcações usadas pelos portugueses, pelo menos até Bartolomeu Dias, foram as pequenas barchas , dotadas de um mastro e duas velas, e que exigiam tripulação diminuta, de doze a quatorze homens.

Bartolomeu Dias

Veio, depois, o barinel , navio de vela, maior que a barcha , dois mastros, velas redondas e cestas de gávea, podendo também ser movimentado por meio de remos, o que requeria tripulação bem maior que a do primeiro tipo de embarcação.

 

A caravela , usada pela primeira vez em 1400, representa grande progresso na arte da navegação e foi um invento português.

Tinha, inicialmente, mais de cinqüenta toneladas, levava três mastros, castelo na popa, velas quadradas e latinas, dispostas de maneira a aproveitar os ventos de pôpa e os de barlavento.

 

Quando tiveram início as grandes viagens através dos mares desconhecidos, viagens que duravam até anos, a capacidade da caravela foi notavelmente aumentada, recebendo quatro mastros, quadruplicando a tonelagem.

 

Por último, apareceram as famosas naus portuguesas , utilizadas pela primeira vez, e com sucesso, na expedição de Vasco da Gama, elas puderam passar pelo cabo da Boa Esperança, entrar pelos mares orientais e chegar à India.

Quanto aos meios de orientação, utilizava-se, de início, a estrela polar. Passando o Equador, porém, não era mais avistada do hemisfério meridional. O astrolábio , medindo a distância do Sol, veio a ser o instrumento director. Havia o astrolábio esférico e planisférico ; astrolábio náutico. Havia também, a balestilha e o quadrante. Mais tarde, surgiu a bússola, e com ela, desapareceram os últimos temores.

As condições políticas, sociais e económicas do século XVI.

 

Portugal lançou-se às navegações oceânicas exatamente quando terminava a Idade Média e começavam os tempos modernos: nos séculos XV e XVI , período de profunda revolução em todos os sectores da vida dos países e da Humanidade. Nessa revolução podemos assinalar, pelo menos, quatro ordens de fatos, os mais diversos, entretanto, intimamente ligados:

 

a ) Um facto de ordem religiosa

 

- a Reforma Protestante, que já se prenuncia na Inglaterra , com Wyclef ; na Boêmia, com Huss , e na Itália , com Savonarola , e que vai estourar , pouco depois na Alemanha , com Martin Lutero ;

 

b ) Um facto de ordem intelectual

- a Renascença, volta dos antigos padrões de beleza greco-latinos , riqueza humanística , novas formas de arte , novos campos de exploração para as ciências

c ) Um facto de ordem política

- a formação dos Estados nacionais, das monarquias absolutas que, substituindo pelo poder central a força dos senhores feudais , iria constituir os países modernos. Foi o que se deu na França, por exemplo, em que os príncipes da casa de Valois, conseguiram destruir os remanescentes do feudalismo e, após a crise desesperada que sobreveio à Guerra dos Cem Anos, conseguiram restaurar as energias do povo e o patriotismo da raça. Pouco a pouco, os soberanos foram aumentando seus poderes. Francisco I mais forte que

Luís XI , Henrique IV bem mais poderoso que Francisco I.

Também a Inglaterra, após a Guerra das Duas Rosas, conseguia levantar-se e, aos poucos, restaurar a força real. Os soberanos ingleses do século XVI: Henrique III , Maria Tudor , Isabel foram grandes monarcas absolutos. Finalmente, a Espanha , saída de luta de vários séculos contra os muçulmanos. Seus primeiros soberanos da Idade Moderna iniciaram a reconstrução e, para isso, aproveitaram a idéia de Colombo e foram procurar riquezas que permitissem o desenvolvimento do país;

d ) Um facto de ordem económica

- o desenvolvimento constante do capitalismo, que se fez com a difusão do grande comércio, e se manifestou pela fundação de numerosas e poderosas casas de negócio, na Itália , na Alemanha , na Holanda. O corporativismo, que ainda dominava, somente aos poucos foi cedendo terreno.

O comércio permanecia, e permaneceria ainda por algum tempo, controlado pelas corporações. O grande comércio, aquele que se fazia através dos mares, pelo Mediterrâneo principalmente, ia entretanto, libertando-se e aumentando, cada dia, seu campo de ação. Desenvolveram-se as indústrias, principalmente as extrativas e as metalúrgicas. Estabeleceram-se mercados novos, entrepostos livres. Modificou-se o regime de trabalho, que ganhou mais liberdade, os artífices fugindo à influências dos patrões e entregando-se ao trabalho por própria conta e risco.

Tudo isso não foi mais que a preparação do terreno para transformação ainda maior: a que seria provocada pelos grandes descobrimentos.

Assim, o desenvolvimento do comércio e da indústria levou os europeus à procura de novos produtos e novos mercados; esses produtos e esses mercados vieram então a modificar os padrões econômicos da vida européia.

O mundo conhecido

O mundo conhecido, na Idade Média Ocidental, restringia-se à Europa, exceto o Norte e o Nordeste - a Rússia que era ainda mais asiática que européia; à Ásia ocidental, banhada pelo Mediterrâneo, e o Norte da África.

A forma real da Terra não era reconhecida por todos, uns supunham-na quadrada; a maioria, entretanto, fazia-a chata, plana - de um lado a parte sólida, do outro o oceano, o "Mar Tenebroso", como diziam.

Ouvira-se falar, ou imaginavam-se terras no ocidente.

Plutarco refere que, a cinco jornadas a oeste da Bretanha, encontravam-se várias ilhas, e, mais além, grande continente de clima benigno.

Nos mapas de Andréia Bianco, de 1436 e 1448, o Atlântico ocidental é povoado de ilhas, entre as quais figurava a enigmática "Antilia" - Flor misteriosa do Oceano.

Do outro lado, leste, ficava a terra das especiarias.

Narrativas fantásticas de comerciantes e aventureiros elevavam bem alto as riquezas da Índia. Marco Pólo, comerciante veneziano, chegara até à China, e escrevera, depois, livro fantástico.

O Livro de Marco Pólo afirma que as "1448 ilhas" das especiarias - as ilhas de Cipango ( Japão ) - estão no mesmo oceano que banha a Europa: "Cipango é uma ilha no Oriente que está no mar alto, longe da terra firme 1.005 milhas... Chama-se a este mar o de Cin, mas ele é o grande mar do ocidente".

Foi o caminho que Colombo seguiu: o nascente pelo poente...

Supunha-se inabitável a zona tórrida: zona de fogo, o inferno, talvez.

Todos esses erros vinham de longe. Eratóstenes, grego, a quem copiaram Martim Behaim, Marco Pólo e Toscanelli, projetava a Índia no ocidente. Heródoto, o pai da História, dizia, igualmente, que todos os povos do mundo os indianos, eram os mais próximos do lugar... onde morre o sol.

Tudo levava a uma transformação: procurar o oriente navegando pelo ocidente.

Os dois ciclos de navegação

Seria admissível que Portugal, lançando-se às navegações, se deixasse levar por tudo isso, e percorresse o Atlântico, sempre para oeste.

Não o fez, porém. Deixou essa rota para os navios de Castela, a começar por Colombo.

O reino lusitano preferiu outro caminho para chegar às Índias: dar a volta à África.

É verdade, porém, que, ao começar, navegou para ocidente. Descobriu os Açôres ( Diogo de Silves ), outras ilhas do Atlântico. De repente, porém, virou de bordo, para a costa da África. Por que essa mudança súbita ?

Porque D. Henrique, o príncipe que dirigia a empreitada, colhera de seus estudos que a África era circunavegável, constituindo assim caminho mais certo e mais fácil.

Infante D.Henrique

O ciclo português - ciclo do sul - era renovação das viagens antigas dos fenícios para o faraó Necau. O ciclo espanhol - o do ocidente - começado mais tarde, ia em busca das ilhas de Cipango, e de Catai.

Razões das grandes navegações

 

Por que toda essa ambição de portugueses, e depois dos espanhóis, para descobrir a grandeza do mar ?

O principal motivo foi o comércio com as Índias. Desde a Idade Média, e como conseqüência das Cruzadas, as cidades italianas do Mediterrâneo dominavam o comércio das especiarias orientais. "Destacando-se Veneza".

Com ele, enriqueceram-se e, defenderam seu caminho. Não deixaram navios de outras nações passar pelo Mediterrâneo.

Resultado: as nações ibéricas, desejosas também de enriquecimento, pensaram em outras rotas. Puseram-se a navegar pelo Ocidente ou pela África. Pouco a pouco, Portugal foi descobrindo toda a costa ocidental do continente negro. Primeiro, foi Gil Eanes, em 1434, que dobrou o cabo Bojador. Depois no mesmo ano, o mesmo Eanes, com Afonso Baldaia, dobrou de novo o famoso cabo e chegou até Angra dos Ruivos. Em 39, Dinis Fernandes aportou ao rio Sanagá; em 41, Nuno Tristão alcançou o gôlfo de Arguim; em 46, Cadamosto, o Rio Grande. Com a morte do Infante ( 1460 ), não cessaram as viagens. D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I assumiram, um após outro, a direção do movimento, e outros descobrimentos tiveram lugar: em 1469, João de Santarém e Pedro de Escobar chegaram à Mina; em 82, Diogo Cão foi até a foz do Congo. Em 1487 - 88, finalmente, meio caminho andado para as Índias, Bartolomeu Dias atingiu o cabo Tormentoso, ou da Boa Esperança, como foi chamado por D. João II, no extremo meridional da África.

O objetivo comercial foi uma resposta à atitude dos italianos.

Os venezianos não se mostraram dispostos a deixar-se vencer sem resistência no seu tráfico com as Índias. Na Europa, como na Ásia, realizaram muitos esforços para dificultar a ação dos portugueses.

Não se dirigiram, porém, diretamente, a eles, procurando formula capaz de acomodar os interesses de ambos.

"Quando novos produtos de Lisboa se espalharam em Veneza - escreve Girolamo Priuli - a cidade inteira ficou como que gelada. As pessoas mais inteligentes diziam que uma grande infelicidade atingira a República. Todos compreenderam que a Alemanha, Hungria, Flandres, França, obrigadas, outrora, a mandar vir as especiarias da Ásia, por intermédio dela, Veneza, iriam agora dirigir-se para Lisboa, a fim de comprá-las num mercado muito melhor e barato", lê-se na "Histoire du Commerce du Monde", de O. Noel. As especiarias que chegavam a Veneza pelo Egito, pela Síria e por outros países do Sultão pagavam, em diversos lugares, taxas elevadíssimas, o que aumentava muito o preço do produto.

A viagem por mar, suprimindo todos esses impostos, dava a Lisboa oportunidade de vender a baixo preço, comparativamente a Veneza.

A viagem de Vasco da Gama com quatro navios, o São Gabriel, o São Rafael, o Bérrio e uma nau de duzentas toneladas, de nome desconhecido, saiu do Restelo em julho de 1497, a fim de tentar a descoberta do caminho marítimo para as Índias.

A 15 de julho, passava a armada em frente às Canárias, a 27 chegava a Cabo Verde. No dia 18 de novembro, passou diante do cabo da Boa Esperança.

Prosseguindo para o norte, dobrou a armada para a costa oriental. Passou por Moçambique, parou em Mombaça e Melinde, e a 20 de maio de 1498 aportava em Calicute.

Estava aberto o caminho marítimo para as Índias.

Depois de libertar-se das traições que lhe armaram os mouros, instigados pelos venezianos, voltou a Portugal, aonde chegou em julho de 1499, com as naus carregadas de especiarias.

 

O Tratado de Tordesilhas

 

Colombo, que acredita-se ser genovês, era casado com a filha de um navegador português, Bartolomeu Perestrelo. Colombo pensava, como Toscanelli e outros, que a Terra era esférica, e que o oriente se projetava sobre o ocidente, de modo que, navegando-se pelo ocidente seria possível chegar-se ao oriente.

Cristovão Colombo

Em Portugal e na França, não quiseram auxiliá-lo, foi à Espanha que estava às voltas com os muçulmanos, quase no fim de sua dominação em Granada, onde os Reis Católicos, reservando todos os seus recursos para essa luta, não auxiliaram logo o Genovês. Este esperou.

Reis Católicos(Fernando e Isabel)

Em 1492, antes mesmo da expulsão dos mouros, com o apoio de Fernando e Isabel, conseguiu três embarcações. Rumo de oeste, Colombo navegou até 12 de outubro, data em que avistou uma ilha, Guanaani - São Salvador - que julgou ser parte avançada da Índia, supondo-a mais próxima do que realmente estava, por pensar que o diâmetro da Terra era dez vezes menor do que realmente é.

Santa Maria

Pinta

Replicas da Pinta e Santa Maria, contruidas para a comemoração dos Quinhentos Anos da descoberta da América.

Estava descoberto um novo mundo !

A 3 de março de 1493, já de volta, Colombo parou em Portugal, antes de chegar à Espanha. A notícia correu.

O rei de Portugal, diante da novidade acreditou que esta terra descoberta lhe pertencia e assim dava a entender as pessoas do seu conselho, principalmente aqueles que eram oficiais de Geografia e Navegação, devido a pequena distância que havia das ilhas Terceiras às descobertas por Colombo.

Cerca de mês depois da chegada de Colombo a Portugal, D. João II reuniu em Tôrres Vedras o Conselho de Ministros e decidiu equipar ostensivamente uma frota, a fim de reivindicar os direitos de Portugal sobre as terras recém-descobertas. As naus foram preparadas e postas sob o comando de D. Francisco de Almeida, futuro vice-rei da Índia.

A expedição não se realizou. A Espanha entrou em entendimentos com Portugal, no que resultou o Tratado de Tordesilhas (Capitulación de la partición del mar oceano ), a 7 / 6 / 1494.

"O acordo foi meramente formal - ninguém sabia o que dava ou recebia, se estava ganhando ou perdendo com este tratado".

Por ele, ficariam pertencendo a Portugal todas as terras descobertas ou por descobrir situadas até 370 léguas de uma ilha do Cabo Verde. Daí em diante, as terras seriam espanholas.

 

Esse tratado foi uma modificação da bula Inter Coetera, de 4 / 5 / 1483, do papa Alexandre VI, que situava a linha nas 100 léguas, caindo, por isso, em pleno oceano.

O meridiano de Tordesilhas nunca foi definitivamente demarcado.

Nomearam-se comissões para esse fim, mas não se disse de qual das ilhas do Cabo Verde deveria começar a demarcação. Também não foi fixada qual a medida levada em conta: pois as léguas portuguesas tinham uma dimensão e as espanholas outra.

De qualquer forma, parte do Brasil, antes mesmo do descobrimento, já pertencia a Portugal.

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